Globo e ditadura militar: a história de uma escolha — e por que ela volta a incomodar em 2026

Globo e ditadura militar: a história de uma escolha — e por que ela volta a incomodar em 2026

Opinião | MM MONTEIROS

A Globo cresceu durante a ditadura, apoiou o golpe de 1964 e, em 2013, admitiu que isso foi um erro. Em outubro de 2026, o almoço de Flávio Bolsonaro com a cúpula do grupo, horas antes de sua sabatina no Jornal Nacional, reabriu a pergunta: a emissora trata os candidatos com a mesma régua? Este texto é opinião, e separa o que é fato do que é leitura minha.


Uma sexta-feira que parecia rotina

Na sexta-feira, 16 de outubro de 2026, o senador Flávio Bolsonaro (PL) almoçou na sede da Globo, no Rio de Janeiro. Foi recebido por João Roberto Marinho, presidente do Grupo Globo, e por Paulo Tonet, vice-presidente de Relações Institucionais.

Poucas horas depois, ele foi sabatinado no Jornal Nacional. Um dia antes, Lula tinha passado pela mesma sabatina, sem que se conheça convite para um almoço com a direção.

O fato, em si, é simples. O que ele significa é o que está em disputa.


O que a Globo diz

A emissora confirmou o encontro e o classificou como “visita institucional”. Segundo a nota, o encontro não contou com lideranças do Jornalismo, e pedidos desse tipo são rotina entre executivos de mídia.

A Globo também afirma que a ordem das sabatinas foi definida por sorteio. Essa é a versão da empresa e precisa ser registrada com fidelidade.


O que a campanha de Lula diz

Auxiliares do presidente afirmam que ele não foi convidado para um almoço semelhante. O ministro da Secretaria de Comunicação, Sidônio Palmeira, chamou a situação de grave, por ocorrer no mesmo dia da entrevista e numa eleição em que a democracia está em jogo.

Até aqui, a Globo não esclareceu publicamente se houve convite ou pedido equivalente de outros candidatos.


Para entender melhor: o que é linha editorial?

Linha editorial é o conjunto de escolhas que orienta um veículo: o que cobrir, como cobrir, quem ouvir e o que destacar.

Toda empresa de comunicação tem uma. O problema não é ter posição. O problema é esconder a posição, ou fingir neutralidade enquanto se age de outra forma.


Como a Globo entrou na televisão em plena ditadura?


Viva a História: 26/04/1965 — Inaugurada no Rio de Janeiro a TV Globo …

A TV Globo foi inaugurada em 26 de abril de 1965, um ano após o golpe. Mas há uma correção necessária: as concessões iniciais do grupo foram obtidas antes de 1964, nos governos de Juscelino Kubitschek e João Goulart.

Ou seja, a ditadura não deu à Globo o seu primeiro canal. O que ela deu foi o ambiente em que a empresa se tornou gigante.


Quando o poder e o mercado andam juntos


1969 – Estreia o Jornal Nacional | Historiaglobo

A expansão da Globo tem muitas causas: publicidade em alta, investimento em tecnologia, programação própria e a formação de uma rede nacional. Pesquisas acadêmicas, como as de Sergio Mattos, também apontam as boas relações com os governos militares como fator relevante.

Concessão de televisão é a autorização pública para operar um canal. Rede nacional é o conjunto de emissoras que exibe a mesma programação em várias regiões.

Em 1969, o Jornal Nacional estreou e passou a levar a mesma versão dos fatos, no mesmo horário, a um país gigantesco. É difícil exagerar o poder que isso representa.

Você sabia? O contrato da Globo com o grupo americano Time-Life, firmado em 1962, foi questionado por contrariar a regra que proibia capital estrangeiro na mídia. A empresa seguiu crescendo durante o regime. (Dado a conferir em fonte primária antes da publicação.)


Roberto Marinho e os generais

Em 1984, Roberto Marinho publicou em O Globo um texto defendendo a participação do jornal no movimento de 1964. Seu argumento era que o apoio visava preservar as instituições.

Também é verdade que a Globo enfrentou censura e que Marinho reagiu a vetos, como o da novela Roque Santeiro. Essa nuance importa.

Mas ela não apaga o essencial. Em momentos decisivos, a Globo esteve do lado do poder, não do lado de quem era perseguido.


Diretas Já: o dia em que a rua virou “aniversário”

Em janeiro de 1984, quando milhares de pessoas foram à Praça da Sé, em São Paulo, pedir eleições diretas, o Jornal Nacional tratou o ato como comemoração do aniversário da cidade.

A cobertura só ganhou plenitude quando a mobilização já era impossível de ignorar. É o tipo de decisão editorial que molda a memória de um país.


O que a própria Globo reconheceu em 2013

Em agosto de 2013, em meio às manifestações, O Globo publicou o editorial “Apoio editorial ao golpe de 64 foi um erro”. É um documento importante, porque encerra a discussão sobre se o apoio existiu.

Mas reconhecer um erro não é repará-lo. O texto veio quase cinquenta anos depois, quando o regime já era passado e o custo de admitir era baixo.


Minha tese: a Globo escolheu, e a escolha tem um padrão


João Roberto Marinho assume a presidência do Conselho de Administração …

Aqui começa a opinião, e é bom deixar isso claro.

Em 1964, a Globo não foi vítima de uma conjuntura. Fez uma escolha editorial e empresarial: ficar ao lado de quem tinha o poder de decidir o futuro do setor. Isso não é leitura minha; é o que o próprio jornal admitiu em 2013.

O que defendo é que essa lógica, a de se aproximar de quem pode ganhar, não desapareceu. A pergunta de 2026 é se estamos vendo mais um capítulo dela.


2026: o que o almoço prova e o que ele não prova

Seria desonesto dizer que um almoço, sozinho, comprova que a Globo apoia Flávio Bolsonaro. Ele não comprova.

Também seria ingênuo tratar o encontro como banal. Um candidato é recebido pela cúpula do maior grupo de mídia do país, horas antes de ser entrevistado por ele, e o adversário afirma que não teve a mesma oportunidade. A Globo não esclareceu se houve equivalente.

Na minha leitura, isso é tratamento desigual na forma como a empresa se relaciona com os candidatos, e favorece Flávio. Em eleição, a forma importa tanto quanto o conteúdo. Se a cobertura confirmará esse favorecimento, só os dados dirão.


Por que isso importa para quem não acompanha política

Uma emissora com o alcance da Globo não é uma empresa qualquer. Ela ajuda a definir o que entra na conversa nacional.

Quando a imagem de imparcialidade é abalada, o prejuízo não é só da empresa. É da confiança do público em toda a imprensa, o que favorece quem prefere que ninguém acredite em nada.


A história se repete ou o contexto mudou?


O Globo – Globo 100 anos: Veja a linha do tempo dos principais …

O contexto é outro, e isso não pode ser esquecido. Em 1964 havia censura, repressão e ausência de eleições livres. Em 2026 há eleição competitiva, imprensa plural e instituições funcionando.

Por isso, a comparação vale como alerta, não como equivalência. O que precisa ser medido é o tratamento: tempo de tela, perguntas, destaque, tom. Essa é a cobrança que o público pode fazer.


O que se pode exigir de um grupo de mídia

Transparência sobre encontros com candidatos. Regras claras e iguais para todos. Respostas públicas quando houver dúvida legítima.

Não é pedir demais. É o mínimo para quem diz servir ao interesse público.


Conclusão: sem reverência e sem atalhos


‘Roberto Marinho era um pauteiro, saía atrás das histórias e as trazia …

Entender a história da Globo é entender como poder político, mercado publicitário, infraestrutura e escolhas editoriais se entrelaçam. O apoio ao golpe de 1964 foi reconhecido pelo próprio jornal. O que acontece em 2026 será julgado pelos fatos que vierem à tona.

Em uma democracia, a mídia precisa ser examinada sem reverência, sem atalhos e com compromisso com os fatos. E você: que garantias um grupo de comunicação deveria dar ao público para provar que trata todos os candidatos da mesma forma?


Fontes