Entre religião, eleições e disputa de valores, o caso mostra como um projeto de lei arquivado há quase duas décadas voltou a viralizar — e por que a disputa por símbolos de fé virou uma peça central da política brasileira

Fé e política no Brasil
Nesta semana, um projeto de lei de 2007, arquivado desde 2008, voltou a circular nas redes sociais como se fosse notícia fresca. A alegação: o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) estaria por trás de uma proposta para tirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.
Flávio negou. E, nesse ponto específico, os fatos estão do lado dele: o projeto não foi escrito por ele, e a Justiça Eleitoral já determinou que não há provas de que o candidato tenha proposto ou apoiado essa mudança.
Mas parar por aí seria contar só metade da história — e a metade mais confortável.
Porque o autor do projeto tem, sim, uma relação concreta e documentada com a família Bolsonaro: foi assessor especial da Presidência da República no governo de Jair Bolsonaro e continua, hoje, fazendo campanha ao lado de Flávio. Isso não prova que o candidato “quer tirar a santa do posto”. Mas prova que a polêmica não nasceu do nada, e que fingir que se trata de um episódio isolado, sem lastro, também não é honesto.
É esse o fio que a MM MONTEIROS puxa neste artigo: não para fazer média entre as duas versões, mas para explicar como uma discussão sobre a Padroeira do Brasil escancarou algo muito maior — a forma como fé, símbolos religiosos e disputa de poder se misturam na política brasileira, e como isso afeta diretamente mulheres, pessoas negras e a população LGBTQIA+.
MM EXPLICA: o que aconteceu, na ordem certa

Flávio nega publicamente qualquer relação com a proposta
Para entender a polêmica sem cair em nenhuma das armadilhas — nem a da desinformação, nem a da isenção fácil — vale reconstruir a linha do tempo.
2007. O então deputado federal Professor Victório Galli, na época filiado ao PMDB de Mato Grosso, apresenta o Projeto de Lei 2.623/2007. A proposta altera a lei de 1980 que instituiu o feriado de 12 de outubro e troca a expressão “padroeira do Brasil” por “padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. O argumento de Galli, na justificativa do projeto, era que um Estado laico não deveria ter padroeira oficial.
2008. O projeto é arquivado, sem nunca ter sido votado.
2019. Galli, agora pastor evangélico e já alinhado ao bolsonarismo, é nomeado assessor especial da Presidência da República por Jair Bolsonaro — cargo que ocupa por cerca de quatro meses, entre fevereiro e junho daquele ano.
Setembro de 2026. Em meio à campanha presidencial, a jornalista Maria Cristina Fernandes, da GloboNews, menciona no programa Em Pauta uma movimentação para retirar Nossa Senhora Aparecida do posto de padroeira — comentário que passa a ser associado, nas redes, à candidatura de Flávio Bolsonaro. O canal posteriormente tenta “corrigir” a informação e pede desculpas. A partir daí, publicações passam a atribuir ao senador a intenção de mudar o título da santa.
24 de setembro. Flávio nega publicamente qualquer relação com a proposta, atribui a origem das postagens à “milícia do PT” e sua equipe jurídica avalia acionar o Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
25 de setembro. O ministro André Mendonça, vice-presidente do TSE, concede liminar determinando que o humorista Antonio Tabet apague uma publicação que acusava a “família miliciana” de Flávio de atacar a santa, sob multa de R$ 30 mil. Na decisão, Mendonça registra que os documentos apresentados pela campanha indicam que o candidato não propôs nem apoiou a retirada do título.
Até aqui, portanto, dois fatos verificados coexistem — e nenhum anula o outro:
- Não há evidência de que Flávio Bolsonaro tenha escrito, proposto ou defendido publicamente a retirada do título de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil.
- O autor do projeto que originou essa história tem vínculos reais, documentados e recentes com a família Bolsonaro.
Quem é Victório Galli — e por que essa conexão importa
É aqui que a cobertura precisa ser mais cuidadosa, porque é o ponto onde a tentação de simplificar (para qualquer lado) é maior.
Victório Galli Filho não é um desconhecido que um dia, décadas atrás, cruzou o caminho de um Bolsonaro. Depois de deixar a Câmara, ele se aproximou do bolsonarismo, foi nomeado assessor especial da Presidência por Jair Bolsonaro logo no início do primeiro mandato, em 2019, e deixou o governo poucos meses depois — segundo reportagens da época, para atuar nas articulações da reforma da Previdência.
Mais recentemente, Galli se filiou ao PP e tentou voltar à Câmara dos Deputados como candidato por Mato Grosso nas eleições de 2026. Segundo a Revista Fórum, ele mantém apoio público à candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro e já esteve ao lado do senador em agenda de campanha em Sinop (MT) — a mesma reportagem publicou uma foto de Galli ao lado de Jair e Flávio Bolsonaro.
Por que isso não é “fake news”, mas também não é prova do que as redes disseram

Uma coisa é dizer “Flávio Bolsonaro quer tirar Nossa Senhora Aparecida do posto de padroeira” — isso é uma afirmação factual específica, e ela não se sustenta com o que se sabe até agora.
Outra coisa, bem diferente, é dizer “essa polêmica surgiu do nada e não tem relação nenhuma com o campo político de Flávio Bolsonaro” — isso também não é verdade, porque o autor do projeto integrou o governo de Jair Bolsonaro e segue hoje fazendo campanha ao lado do filho dele.
O jornalismo sério não escolhe entre essas duas simplificações. Ele fica exatamente no meio incômodo: a autoria do projeto pertence a alguém com laços reais com os Bolsonaro, mas isso não equivale a dizer que o candidato compartilha ou patrocinou aquela ideia específica. É essa distinção — entre pessoa e rede política, entre autoria e proximidade — que a maior parte dos posts virais simplesmente não fez.
Você sabia? A polêmica também escancarou uma disputa institucional

A aposta de Bolsonaro para reverter inelegibilidade no TSE
O episódio não ficou só nas redes sociais: chegou ao TSE, que decidiu obrigar a remoção de uma publicação específica sob ameaça de multa. Decisões desse tipo — que miram uma postagem sem citar nominalmente um candidato, mas presumem que ele se sentiu visado — têm gerado debate jurídico sobre os limites entre proteção da imagem de candidatos e liberdade de expressão em período eleitoral. É um capítulo à parte dessa história, mas mostra como rápido uma disputa simbólica em torno de uma santa católica virou também uma disputa sobre os limites da Justiça Eleitoral.
Nossa Senhora Aparecida: muito mais do que uma imagem religiosa

Nossa Senhora Aparecida é, na representação mais difundida, uma santa negra
Para entender por que essa polêmica específica pegou tanto, é preciso entender o que Nossa Senhora Aparecida representa.
A imagem foi encontrada, segundo a tradição católica, em 1717, por pescadores no rio Paraíba do Sul. É uma imagem de terracota escura, e essa característica não é um detalhe menor: Nossa Senhora Aparecida é, na representação mais difundida, uma santa negra — venerada em um país historicamente marcado pela escravidão e por séculos de racismo estrutural.
Em 1930, ela foi proclamada Padroeira do Brasil pelo papa Pio XI, e o dia 12 de outubro, data da romaria a Aparecida (SP), virou feriado nacional. Hoje, a Basílica Nacional de Aparecida é um dos maiores santuários marianos do mundo e recebe milhões de peregrinos por ano.
É um símbolo que atravessa classes sociais, regiões e, em boa medida, também posições políticas — não pertence eleitoralmente a esquerda nem a direita, a PT nem a PL. Por isso a pergunta que fica é: o que acontece quando um símbolo compartilhado por milhões de pessoas é puxado para dentro de uma disputa eleitoral?
MM EXPLICA: Estado laico não é Estado sem religião

Estado laico não significa que o Estado é contra a religião
Um mal-entendido comum precisa ser desfeito aqui.
Estado laico não significa que o Estado é contra a religião, nem que políticos religiosos não podem participar da vida pública. Significa, na verdade, que:
- o Estado não tem religião oficial;
- não pode privilegiar uma crença específica em detrimento de outras;
- deve garantir liberdade religiosa — inclusive a de quem não professa religião alguma;
- deve tratar igualmente fiéis de diferentes tradições e pessoas sem religião.
Isso quer dizer que pastores podem ser deputados, padres podem defender posições públicas, católicos e evangélicos podem votar e fazer campanha com base em sua fé. Nada disso fere a laicidade.
O problema democrático aparece em um momento bem específico: quando uma crença particular deixa de ser uma convicção pessoal e passa a ser apresentada como regra que deveria valer, por lei, para toda a sociedade — inclusive para quem não compartilha daquela fé.
Fé e poder: uma relação que atravessa a história do Brasil

A proximidade entre religião e política no Brasil não começou nas redes sociais, nem no bolsonarismo. Ela vem de longe.
No Brasil colonial, a Igreja Católica funcionava sob o regime do padroado, uma aliança formal entre a Coroa portuguesa e a Igreja que unia catequese, colonização e controle social — inclusive sobre a população escravizada. No Império, o catolicismo foi religião oficial do Estado, com restrições legais a outras crenças. Só com a República, em 1891, veio a separação formal entre Igreja e Estado e a garantia constitucional de liberdade religiosa.
Mas separação formal não significou desaparecimento da influência religiosa na política. Ao longo do século XX e, com mais força, a partir da redemocratização, cresceu a presença de igrejas evangélicas na vida pública brasileira — e, com ela, a eleição de parlamentares religiosos organizados em torno de pautas específicas, como a atual Frente Parlamentar Evangélica no Congresso.
Foi nesse território que floresceu o que ficou conhecido como “guerra dos costumes“: disputas em torno do aborto, da educação sexual, dos direitos LGBTQIA+, do que se chamou, de forma pejorativa, de “ideologia de gênero”, e da definição pública do que conta como “família”. Pesquisas em ciência política e sociologia da religião mostram que setores do ativismo religioso conservador atuaram de forma organizada nessas disputas — sem que isso signifique que todo religioso, ou toda igreja, compartilhe dessa agenda.
Racismo, misoginia e LGBTfobia: onde essas estruturas aparecem

Esta é a parte mais delicada de qualquer artigo sobre religião e política — e também a mais necessária, desde que feita com cuidado.
A pergunta não é “toda pessoa religiosa é racista, misógina ou homofóbica” — evidentemente não é. A pergunta que vale investigar é outra: quando pautas morais específicas viram política de Estado, quem costuma pagar a conta?
| Estrutura | Como pode aparecer no debate público |
|---|---|
| Racismo | Criminalização simbólica de religiões de matriz africana, apagamento da dimensão racial de símbolos como Nossa Senhora Aparecida |
| Misoginia | Disputas sobre aborto, contracepção e autonomia do corpo das mulheres tratadas como questão moral, não de saúde pública |
| LGBTfobia | Discursos que descrevem diversidade sexual e de gênero como ameaça à “família”, em vez de como parte da pluralidade social |
| Elitismo | Modelos de “família ideal” que correspondem mais à experiência de classes privilegiadas do que à realidade de mães solo, famílias periféricas e trabalhadoras domésticas |
Nenhuma dessas linhas é automática, e é importante não transformar hipótese em sentença: existem católicos progressistas, evangélicos de esquerda, pastores e padres engajados em pautas antirracistas, feministas e de direitos humanos, e comunidades religiosas afirmativas para pessoas LGBTQIA+. A teologia da libertação, as pastorais sociais e movimentos como o cristianismo negro antirracista são parte real — e historicamente relevante — do campo religioso brasileiro.
Mas ignorar que, em determinados discursos e determinadas alianças políticas, essas estruturas se combinam seria fechar os olhos para um padrão real, sustentado por pesquisa acadêmica sobre religião e comportamento eleitoral no Brasil.
A “guerra espiritual” chegou às redes — e está mais ativa do que parece

O episódio de Nossa Senhora Aparecida não é um evento isolado: ele se encaixa em um fenômeno mais amplo, que pesquisadores vêm chamando de “guerra espiritual” digital.
Um levantamento divulgado em setembro de 2026, que analisou mais de 26 mil publicações relacionadas à crise institucional envolvendo o Supremo Tribunal Federal, identificou forte circulação de narrativas religiosas em redes bolsonaristas — incluindo a apresentação do ministro André Mendonça como alguém “escolhido por Deus” e a demonização de outro ministro do STF, Alexandre de Moraes, em termos quase religiosos, de bem contra mal.
É um padrão de comunicação que transforma adversário político em inimigo espiritual — e que encontra em plataformas como WhatsApp, Telegram, TikTok e Instagram um terreno fértil para se espalhar rápido, sem o filtro (e sem os erros, mas também sem as correções) do jornalismo tradicional.
Vale registrar que a disputa religiosa não corre só em um sentido político. Na mesma semana da polêmica sobre Nossa Senhora Aparecida, setores da Igreja Católica também se manifestaram publicamente sobre a eleição: o arcebispo emérito de Aparecida, Dom Orlando Brandes, defendeu que nenhum poder estrangeiro deveria interferir nos rumos do Brasil e pediu que os fiéis votassem pensando no bem comum, enquanto dioceses e bispos divulgaram orientações de voto com ênfase em justiça social, proteção ambiental e defesa dos mais vulneráveis. Ou seja: o mesmo espaço religioso que é disputado por narrativas de guerra cultural também produz, simultaneamente, discursos com ênfase bem diferente.
Quando o adversário político vira inimigo moral

Existe uma escada perigosa nesse tipo de disputa, e vale nomeá-la:
divergência → polarização → desumanização → demonização → justificação da violência
Isso não significa que toda retórica religiosa na política chega ao último degrau. Mas é importante entender o mecanismo: quando um lado da disputa política passa a se apresentar como representante de Deus, o adversário deixa de ser só um rival eleitoral — vira, no imaginário de quem acredita nesse discurso, uma ameaça moral, quase espiritual.
Em uma democracia plural, formada por pessoas de fés diferentes e por quem não professa religião nenhuma, nenhum partido, nenhuma campanha e nenhum candidato tem — ou deveria reivindicar — o monopólio sobre Deus.
Nossa Senhora Aparecida pertence a quem?

Voltando ao ponto de partida: a resposta mais honesta é simples. A devoção pertence aos fiéis. O símbolo não pertence a nenhum partido, e nenhum candidato — de nenhum lado do espectro político — deveria transformar uma imagem religiosa nacional em propriedade eleitoral.
Isso vale tanto para quem tentou associar Flávio Bolsonaro a um projeto que ele não escreveu quanto para qualquer tentativa, no sentido oposto, de blindar completamente a discussão fingindo que a conexão entre o autor do projeto e a família Bolsonaro simplesmente não existe.
Os dois exageros — o da desinformação e o da isenção automática — fazem o mesmo tipo de mal: empobrecem o debate público e tiram do leitor a chance de entender a história completa.
Por que isso importa

O verdadeiro desafio de uma democracia plural não é escolher qual religião deve guiar o país. É garantir que cada pessoa possa viver sua fé — ou sua ausência de fé — sem que a crença de ninguém vire obrigação para quem pensa diferente.
Quando um símbolo religioso é transformado em propriedade de um partido, a religião perde parte da sua pluralidade. E quando uma crença específica vira régua obrigatória para toda a sociedade, quem não compartilha dela deixa de ser apenas “diferente” — passa a ser tratado como alguém a corrigir.
Talvez por isso a pergunta mais importante da política brasileira hoje não seja “Deus está de que lado?”. Mas sim: que tipo de país queremos construir quando pessoas que acreditam em coisas diferentes — ou em nada — precisam continuar vivendo juntas?
Glossário rápido
Estado laico — modelo em que o poder público não adota religião oficial e garante liberdade de crença (e de não crença) a todas as pessoas.
Padroeira/padroeiro — santo ou santa reconhecido pela Igreja Católica como protetor de um lugar, grupo ou país.
Guerra dos costumes — disputa política em torno de temas como aborto, gênero, sexualidade e família, que ganhou força a partir da redemocratização.
Guerra espiritual (no sentido político) — uso de linguagem e símbolos religiosos para transformar disputas eleitorais em confrontos entre “o bem” e “o mal”.
Fundamentalismo político — quando uma leitura religiosa específica busca orientar, de forma abrangente, a organização política e social de todo um país — e não apenas a vida de seus próprios fiéis.
Fontes
- CNN Brasil — Entenda a polêmica envolvendo Flávio Bolsonaro e Nossa Senhora Aparecida
- CartaCapital — Como Nossa Senhora Aparecida entrou na disputa eleitoral e o que Flávio Bolsonaro tem a ver com isso
- Diario de Pernambuco / Diário de Minas (EM) — Autor do projeto que “rebaixava” Nossa Senhora Aparecida foi assessor de Jair Bolsonaro na Presidência
- Revista Fórum — Nossa Senhora Aparecida: autor do projeto para retirar título de padroeira do Brasil foi assessor especial de Bolsonaro
- Agência Pública — Nossa Senhora Aparecida: boato sobre padroeira domina redes e chega ao TSE
- ICL Notícias — Autor de projeto sobre Nossa Senhora Aparecida foi assessor de Bolsonaro
- UOL Notícias (coluna Carlos Madeiro) — Crise no STF reativa “guerra espiritual” em redes evangélicas bolsonaristas
- Produção acadêmica em Ciência Política e Sociologia da Religião sobre religião, ideologia e comportamento eleitoral no Brasil (SciELO)

